Safenectomia é a cirurgia de retirada da veia safena da perna quando ela está doente, com refluxo, e alimenta varizes. Não confundir com a ponte de safena, cirurgia cardíaca em que um pedaço de safena sadia é usado para desviar uma artéria do coração entupida: são procedimentos diferentes, feitos por especialistas diferentes, e este artigo trata só da safena como causa de varizes.
Durante décadas a safenectomia foi o único tratamento definitivo para a veia safena magna insuficiente. Hoje ela é a exceção: as técnicas endovenosas, com o endolaser à frente, fecham a mesma veia sem cortes e com recuperação de horas, não de semanas. Explico como era, como é e em que situações a cirurgia aberta ainda tem lugar.
Como é feita a safenectomia clássica?
A técnica tradicional é o stripping (fleboextração). Sob raquianestesia ou anestesia geral, o cirurgião faz uma incisão na virilha para ligar a safena na junção com a veia femoral (crossectomia), outra incisão no joelho ou no tornozelo, passa um fio guia dentro da veia e a arranca de dentro da perna. As varizes visíveis são retiradas por microincisões adicionais. Dura de 1 a 2 horas, exige internação de um dia e a perna sai enfaixada.
Variantes menos agressivas, como a safenectomia parcial (só o segmento com refluxo) e a técnica de invaginação, reduziram o trauma, mas não eliminaram o problema central: retirar uma veia de 40 a 60 cm por tração provoca hematoma, dor e risco de lesão do nervo safeno, que corre colado à veia abaixo do joelho.
Como é a recuperação da safenectomia?
- Primeira semana: dor moderada, hematoma extenso na coxa e na perna, faixa ou meia de compressão, analgésicos; afastamento do trabalho de 7 a 15 dias em atividades leves;
- 2 a 4 semanas: retirada de pontos, hematoma amarelado, retorno gradual a caminhadas; exercícios de impacto só após 4 a 6 semanas;
- Cicatrizes: virilha (3 a 5 cm) e joelho ou tornozelo, além das microincisões;
- Sequelas possíveis: dormência na face interna da perna por lesão do nervo safeno (5 a 20% nas séries clássicas, parte permanente), seroma na virilha, infecção de ferida, trombose venosa profunda (rara, mas presente) e neovascularização na virilha, que é uma das causas de recidiva de varizes.
O que substituiu a cirurgia: técnicas endovenosas
A lógica mudou: em vez de arrancar a veia, ela é fechada por dentro e o organismo a reabsorve ao longo de meses. Tudo guiado por ultrassom, com anestesia local e sem internação.
- Endolaser (ablação a laser): uma fibra fina entra na safena por uma punção, o laser aquece a parede e a veia se fecha. É a nossa primeira escolha para a safena magna: taxa de oclusão acima de 95% em 5 anos nos estudos, retorno às atividades no mesmo dia, sem cortes e sem risco de lesão do nervo por tração.
- Radiofrequência: princípio semelhante, com energia térmica por cateter; resultados comparáveis ao laser, com algumas limitações técnicas em veias tortuosas.
- Escleroterapia com espuma: injeção de espuma que fecha a veia quimicamente; indicada em safenas de menor calibre, em recidivas e em pacientes que não podem receber anestesia; exige mais reaplicações.
- Métodos não térmicos (cola cianoacrilato, mecânico-químico): dispensam anestesia tumescente; disponibilidade e custo ainda limitam o uso no Brasil.
As diretrizes europeias e americanas recomendam a ablação térmica endovenosa (laser ou radiofrequência) como primeira opção para a safena magna com refluxo, deixando a cirurgia aberta para casos selecionados. Comparo as três abordagens em laser, espuma ou cirurgia.
Quando a safenectomia ainda é indicada?
- Safena muito dilatada (acima de 15 a 20 mm) ou aneurismática perto da junção, em que o fechamento térmico é menos confiável;
- Safena muito tortuosa ou muito superficial, colada à pele, com risco de queimadura e de fibrose visível;
- Tromboflebite prévia que deixou a veia ocluída em segmentos, impedindo a passagem da fibra;
- Falha ou recanalização após tratamento endovenoso, em casos escolhidos;
- Indisponibilidade da tecnologia, ainda uma realidade em parte do sistema de saúde.
Mesmo nesses casos, a cirurgia atual costuma ser híbrida: ligadura da junção por uma incisão mínima e espuma ou laser no restante, o que reduz o hematoma e a chance de lesão nervosa.
O que acontece com o sangue depois que a safena é retirada ou fechada?
A safena é uma veia do sistema superficial, que carrega cerca de 10% do retorno venoso. Quando ela tem refluxo, não está ajudando: está devolvendo sangue para baixo e sobrecarregando as outras veias. Retirá-la ou fechá-la redireciona o fluxo para o sistema profundo, que já faz 90% do trabalho, e os sintomas melhoram. Explico isso em detalhe em retirar a safena faz falta?. A avaliação prévia com ultrassom confirma que as veias profundas estão íntegras, condição para qualquer um dos tratamentos.
Safenectomia ou endolaser: como decidir
A decisão depende do mapeamento com Doppler: calibre, trajeto, profundidade da safena, extensão do refluxo e presença de trombose antiga. Na grande maioria dos pacientes o endolaser oferece o mesmo resultado da cirurgia com uma fração do trauma e sem internação; a safenectomia entra quando a anatomia inviabiliza a técnica endovenosa. Quem quer entender a comparação completa de anestesia, recuperação, cicatrizes e riscos pode ler cirurgia de varizes: como é feita hoje.
Perguntas frequentes
Safenectomia e ponte de safena são a mesma coisa?
Não. Safenectomia é a retirada da veia safena doente da perna para tratar varizes. Ponte de safena é uma cirurgia do coração que usa um pedaço de safena sadia como desvio de uma artéria coronária entupida.
Quanto tempo leva a recuperação da safenectomia?
Em média 2 a 4 semanas para atividades normais, com 7 a 15 dias de afastamento, hematoma por 3 a 4 semanas e exercícios de impacto após 4 a 6 semanas. No endolaser o retorno é no mesmo dia.
A safenectomia deixa cicatriz?
Sim: uma incisão na virilha de 3 a 5 cm, outra no joelho ou tornozelo e microincisões nas varizes retiradas. As técnicas endovenosas deixam apenas o ponto da punção.
Quais os riscos da safenectomia?
Hematoma, dor, infecção de ferida, dormência na face interna da perna por lesão do nervo safeno, seroma na virilha, trombose venosa profunda (rara) e neovascularização, que pode causar recidiva.
Ainda existe indicação de retirar a safena com cirurgia?
Sim, em casos selecionados: safena muito dilatada ou aneurismática, muito tortuosa ou muito superficial, ocluída por flebite antiga ou após falha do tratamento endovenoso. Para a maioria, o endolaser é a primeira escolha.
Fico sem safena para uma futura ponte no coração?
Uma safena com refluxo e dilatada já não serve como enxerto de boa qualidade. Além disso, existem outras opções de enxerto (artéria mamária, radial, safena do outro lado). Isso não deve impedir o tratamento da safena doente.