Uma das dúvidas mais frequentes que recebo é sobre varizes e sobrepeso: "Doutor, estou acima do peso, posso começar o tratamento ou preciso emagrecer antes?" A resposta honesta é: depende de qual veia estamos falando. Para a safena e as varizes grossas, o peso pouco interfere no resultado. Para os vasinhos e as microvarizes, interfere muito. Explico abaixo o porquê e a ordem que costumo seguir no consultório, em Fortaleza.
Por que peso e varizes andam juntos
Já falei várias vezes sobre as causas das varizes e dos vasinhos, e a principal delas, sem dúvida, é a genética associada ao sobrepeso, muitas vezes à obesidade. A predisposição herdada deixa a parede da veia e as válvulas mais frouxas. O excesso de peso entra como o fator que acelera: aumenta a pressão dentro do abdome, dificulta o retorno do sangue das pernas para o coração, reduz a atividade física e, com o tempo, sobrecarrega veias que já nasceram vulneráveis.
Não é por acaso que a maior parte das diretrizes, como a ESVS 2022, coloca o controle do peso e a atividade física entre as medidas de base no cuidado da doença venosa crônica. Mas há uma diferença grande entre "o peso piora as varizes" e "o peso impede o tratamento". São coisas distintas.
Varizes grossas e safena: o peso pouco muda o resultado
Quando o problema é a doença da safena, aquelas varizes mais grossas e saltadas que descem pela coxa ou pela perna, estar acima do peso pouco vai influenciar o resultado do tratamento. Isso porque a técnica que usamos hoje para essa condição é o endolaser, a termoablação intravenosa: uma fibra de laser fecha a safena por dentro, guiada por ultrassom, com anestesia local e sem internação. O procedimento é feito no consultório, sem cortes, e a paciente sai andando.
Como não há anestesia raquidiana, não há internação e o tratamento é dirigido à veia doente, o sobrepeso por si só não impede que a safena seja tratada nem reduz de forma importante a chance de a veia fechar. O que avaliamos com cuidado são as comorbidades que costumam vir junto: pressão alta, diabetes, colesterol muito elevado. Se estiverem compensadas, seguimos. Se não estiverem, ajustamos primeiro com o clínico ou o cardiologista, porque aí sim pode haver um motivo para adiar.
Vasinhos e microvarizes: aqui o sobrepeso pesa
A conversa muda quando falamos de vasinhos e microvarizes. Nesses vasos finos, a obesidade, o sobrepeso e principalmente o lipedema em fase ativa, aquele momento com muita inflamação na pele e na gordura, influenciam muito negativamente a resposta.
Para dar uma ideia do que vejo na prática: um paciente com um determinado padrão de vasinhos, num peso adequado, costuma ter uma expectativa de melhora acima de 80 a 90% com escleroterapia e laser transdérmico. O mesmo padrão de vasinhos em alguém com sobrepeso ou obesidade pode cair para algo em torno de 30 a 40%. São expectativas médias, e resultados variam de pessoa para pessoa, mas a diferença é grande demais para ser ignorada. Os vasos fecham menos, reabrem mais e novos vasos surgem com mais facilidade, porque a pressão e a inflamação que os alimentam continuam lá.
A ordem que costumo seguir
Por tudo isso, é comum eu indicar primeiro o tratamento da safena ou das varizes grossas e dizer para o paciente: agora vamos perder um pouco de peso e começar uma atividade física, para tratar as microvarizes e os vasinhos num momento mais oportuno, em que sabemos que a resposta vai ser melhor.
Essa sequência tem lógica. A safena com refluxo é a "raiz" que pressiona toda a rede abaixo dela. Tratá-la logo alivia os sintomas de peso e cansaço, reduz o risco de complicações e muitas vezes já melhora o aspecto dos vasinhos, mesmo sem tocar neles. Enquanto isso, a perda de peso e o movimento preparam o terreno para a etapa estética. Explico melhor como a atividade física ajuda em atividade física e varizes.
Como avaliamos na consulta
Na Clínica VHG a avaliação é feita no mesmo dia, pelo próprio médico. Faço o ultrassom Doppler venoso em pé na consulta para mapear se há refluxo na safena, nas perfurantes ou nas veias nutridoras, e uso o VeinViewer, um aparelho de infravermelho que enxerga veias até 10 mm de profundidade, para ver quais vasos alimentam os vasinhos visíveis. Quando há suspeita de lipedema, a bioimpedância e o exame físico entram na conversa, porque diferenciar lipedema de obesidade muda o plano.
O objetivo é sair da consulta com um diagnóstico integrado e um plano de cuidado por etapas: o que tratar agora, o que deixar para depois e o que depende de peso, atividade física ou controle de comorbidades.
Tratamento na Clínica VHG
- Safena e varizes grossas: endolaser com anestesia local tumescente, em consultório, sem internação. Nas veias calibrosas que não vêm da safena, a espuma densa guiada por ultrassom é uma opção.
- Veias nutridoras e microvarizes até 3 mm: escleroterapia ampliada, com o esclerosante escolhido caso a caso, sempre tratando a veia que alimenta o vasinho.
- Vasinhos finos: laser transdérmico 1064 nm, isolado ou combinado com a escleroterapia (esclerolaser), no momento em que o peso e a inflamação estiverem favoráveis.
- Quando há lipedema: o Programa de Lipedema de 10 semanas cuida da inflamação e do peso antes ou em paralelo à etapa dos vasinhos.
Pacientes de outras cidades do Ceará podem começar por teleconsulta e organizar as etapas presenciais em Fortaleza. Veja como funciona em cirurgião vascular no Ceará.
Quando procurar o cirurgião vascular
Não espere emagrecer para marcar a avaliação. Se você tem varizes saltadas, peso ou cansaço nas pernas no fim do dia, inchaço no tornozelo, coceira ou manchas escuras perto do tornozelo, a safena pode estar doente e o tempo joga contra. A consulta define o que pode ser feito agora, independentemente do peso, e o que vale esperar. Quem adia por achar que "precisa emagrecer antes" costuma chegar com a doença mais avançada, como mostro em o que acontece se não tratar as varizes.
Perguntas frequentes
Estar acima do peso impede o tratamento de varizes?
Não. Para a safena e as varizes grossas, tratadas com endolaser em consultório e anestesia local, o sobrepeso por si só não impede o tratamento e pouco influencia o resultado. O que precisa estar compensado são comorbidades como pressão alta, diabetes e colesterol muito elevado.
Preciso emagrecer antes de tratar vasinhos?
Na maioria dos casos vale a pena. Em quem está com sobrepeso, obesidade ou lipedema em fase inflamatória, a expectativa de melhora dos vasinhos com escleroterapia e laser cai bastante. Por isso costumo tratar a safena primeiro e deixar os vasinhos para quando o peso e a atividade física estiverem melhores.
Endolaser pode ser feito em quem tem obesidade?
Pode, desde que as comorbidades estejam controladas. O endolaser é feito com anestesia local, sem internação e guiado por ultrassom, o que dispensa a anestesia raquidiana e os cortes da cirurgia convencional. A avaliação inclui pressão, glicemia e outros fatores de risco.
O sobrepeso faz as varizes voltarem depois do tratamento?
O excesso de peso mantém a pressão elevada nas veias das pernas e é um dos fatores que favorecem o surgimento de novas varizes e vasinhos ao longo dos anos. Controlar o peso e manter atividade física reduz esse risco, mas não elimina a predisposição genética.
Lipedema e obesidade atrapalham o tratamento de varizes do mesmo jeito?
Não. No lipedema, além do peso, há inflamação da gordura e da pele que prejudica a resposta dos vasinhos, e a perda de peso sozinha não resolve. Por isso diferenciamos lipedema de obesidade na consulta e, quando há lipedema, o programa específico entra no plano antes da etapa estética.