Refluxo venoso é o nome que a gente dá quando a veia deixa de fazer a função dela, que é levar o sangue da perna para cima, e o sangue passa a cair. É a palavra que aparece no laudo do Doppler, é o que está por trás da maioria das varizes e é o que, com os anos, mancha e endurece a pele do tornozelo. Neste artigo explico de forma simples o que é o refluxo, o que ele faz com a perna ao longo do tempo, como a gente confirma no exame e como trata.
Como a veia deveria funcionar
O sangue das pernas precisa subir contra a gravidade até o coração. Para isso, as veias contam com dois mecanismos. O primeiro é a bomba da panturrilha: cada vez que o músculo contrai ao caminhar, ele espreme as veias e empurra o sangue para cima. O segundo são as válvulas, pequenas comportas dentro das veias que se abrem quando o sangue sobe e se fecham para impedir que ele desça de volta quando o músculo relaxa.
Enquanto as válvulas fecham bem, a veia é chamada de competente: o sangue só anda em uma direção, de baixo para cima e da superfície para as veias profundas.
O que é refluxo venoso
Refluxo é quando essa comporta falha. A válvula não fecha por completo, e a cada relaxamento da panturrilha uma parte do sangue que tinha subido cai de volta. A veia deixa de cumprir a função dela: em vez de levar o sangue para cima, ela vira um caminho por onde o sangue desce. Quando isso acontece, a gente diz que a veia está com refluxo, ou insuficiente.
No ultrassom Doppler, o refluxo é medido pelo tempo em que o sangue fica caindo depois de uma manobra de compressão. As diretrizes da ESVS 2022 consideram anormal um refluxo com duração acima de 0,5 segundo nas veias superficiais, como as safenas, e acima de 1 segundo nas veias profundas da coxa e do joelho. Explico como esses termos aparecem no laudo em como ler o laudo do Doppler venoso.
Na maioria das vezes o refluxo tem origem genética: a parede da veia e as válvulas são mais frágeis em quem tem história de varizes na família. Gestações, ganho de peso, muitas horas em pé e o próprio envelhecimento aceleram o processo. Mais raramente o refluxo é consequência de uma trombose antiga que destruiu as válvulas.
O que o refluxo faz com a perna ao longo dos anos
O sangue que cai não some: ele se acumula na veia. Esse excesso de volume e de pressão vai dilatando a veia ano após ano. Uma veia dilatada afasta ainda mais as bordas da válvula, que passa a fechar pior, e o refluxo aumenta. É um ciclo que se retroalimenta.
Com o tempo, a pressão passa da veia principal para as veias ligadas a ela, que começam a dilatar também. É assim que uma safena com refluxo, que ninguém vê, produz veias saltadas na perna, microvarizes e vasinhos na superfície. Junto vêm os sintomas: peso, cansaço, dor, inchaço no fim do dia, câimbras à noite e coceira.
Refluxo e pele: por que o tornozelo mancha e endurece
Essa é a parte que mostrei no vídeo. Quando o refluxo dura muitos anos, a pressão chega aos capilares da pele, principalmente na região do tornozelo, e um pouco de sangue extravasa para o tecido. Esse sangue libera ferro, na forma de hemossiderina, que a pele não consegue eliminar. O resultado é a mancha marrom que chamamos de dermatite ocre.
O ferro e a inflamação crônica vão fibrosando a pele: ela fica dura, brilhante, presa aos planos profundos, um quadro chamado lipodermatoesclerose. Nessa pele endurecida e mal nutrida, qualquer pequeno trauma pode abrir uma ferida que não cicatriza, a úlcera venosa. Por isso a mancha no tornozelo nunca é só uma questão estética: ela é o sinal de que o refluxo já está agredindo a pele.
Sinais de que você pode ter refluxo venoso
- Veias saltadas ou tortuosas na perna ou na coxa, principalmente na face interna;
- Vasinhos em leque ao redor do tornozelo e no pé;
- Peso, cansaço ou dor nas pernas que pioram no fim do dia e melhoram ao deitar com as pernas elevadas;
- Inchaço do tornozelo no fim do dia;
- Câimbras noturnas e coceira na perna;
- Mancha escura, pele endurecida ou ferida perto do tornozelo.
É importante dizer que o refluxo pode existir sem nenhuma veia visível. Algumas pessoas têm apenas sintomas, ou apenas vasinhos, e no exame descobrimos que a safena já está doente.
Como avaliamos na Clínica VHG
Na Clínica VHG, em Fortaleza, o ultrassom Doppler venoso é feito na própria consulta, com a pessoa em pé, que é a posição em que o refluxo aparece de verdade. Examino as veias profundas, para afastar trombose e verificar as válvulas, e depois as safenas magna e parva, as perfurantes e as tributárias, medindo em cada ponto se há refluxo e por quanto tempo. As veias nutridoras dos vasinhos são localizadas com o VeinViewer, aparelho de infravermelho, e a pele do tornozelo é avaliada e fotografada.
O resultado é um mapa de onde o sangue está caindo, que define o plano de cuidado no mesmo dia. Quem mora no interior do Ceará ou em outro estado pode começar por teleconsulta e vir a Fortaleza para o exame e o tratamento.
Como tratamos o refluxo venoso
Não existe remédio que faça uma válvula voltar a fechar. O tratamento consiste em fechar a veia que está com refluxo para que o sangue passe a seguir pelas veias saudáveis, que são a grande maioria. A técnica depende do calibre e da localização da veia:
- Safenas e veias calibrosas: endolaser, com anestesia local e sem internação, ou espuma densa guiada por ultrassom, feita em consultório;
- Veias nutridoras e microvarizes: escleroterapia ampliada, guiada pelo VeinViewer;
- Vasinhos: escleroterapia e laser transdérmico 1064 nm;
- Manchas de hemossiderina: laser específico, aplicado depois que o refluxo foi corrigido.
A ordem importa: tratar primeiro a origem do refluxo e só depois a superfície é o que dá durabilidade ao resultado. Como a predisposição é genética, uma revisão anual mantém tudo sob controle.
Quando procurar o cirurgião vascular
Procure avaliação se você tem veias saltadas, vasinhos que se multiplicam, sintomas de peso e inchaço no fim do dia, ou qualquer mancha, endurecimento ou ferida na região do tornozelo. Quanto mais cedo o refluxo é identificado e tratado, menor o dano à pele e mais simples o tratamento.
Perguntas frequentes
O que é refluxo venoso?
É quando as válvulas de uma veia da perna deixam de fechar e o sangue, em vez de subir para o coração, cai de volta. A veia deixa de cumprir a função dela e passa a acumular sangue, o que a dilata com o tempo e dá origem às varizes.
Refluxo venoso é grave?
Não é uma emergência, mas é progressivo. Sem tratamento, a veia dilata cada vez mais, surgem varizes, sintomas de peso e inchaço e, com os anos, manchas, endurecimento da pele e úlcera no tornozelo. Identificado cedo, o tratamento é simples e sem internação.
Refluxo na safena precisa tratar?
Quando o refluxo na safena vem acompanhado de sintomas, varizes visíveis ou alterações na pele, sim. A safena com refluxo é a fonte de pressão que alimenta as veias da superfície, e tratá-la com endolaser ou espuma é o que evita a progressão e dá durabilidade ao resultado.
Refluxo venoso tem cura?
A válvula que falhou não volta a funcionar, mas a veia com refluxo pode ser fechada com endolaser, espuma ou escleroterapia, e o sangue passa a seguir pelas veias saudáveis. A predisposição genética continua, por isso o acompanhamento anual faz parte do tratamento.
Como saber se tenho refluxo venoso?
Só o ultrassom Doppler venoso confirma, com a pessoa em pé e medindo o tempo em que o sangue cai após uma manobra de compressão. Sinais que sugerem refluxo são veias saltadas, vasinhos no tornozelo, peso e inchaço no fim do dia e manchas escuras na perna.