Quando um caso grave após um procedimento estético ganha as manchetes, a pergunta que chega ao consultório é sempre a mesma: procedimento estético é seguro? Este artigo não é para julgar ninguém. Quem apura o que aconteceu em cada caso são as autoridades competentes. O objetivo aqui é outro: orientar você, que vai fazer um procedimento em consultório ou clínica, sobre o que existe de regra, o que existe de risco e o que perguntar antes de deitar na maca.
Por que falar de segurança agora
Tenho alguma experiência com gestão de clínicas e consultorias na área, e vejo muita informação certa e errada circulando quando um caso desses acontece. O que interessa para você é entender o que precisa existir em qualquer lugar que faça procedimentos, seja com cirurgião plástico, cirurgião vascular, dermatologista ou qualquer outro profissional. Independentemente da capacidade de quem executa, existem regras de estrutura, e elas existem porque intercorrências acontecem com todo mundo.
Anestesia local também tem risco
O primeiro ponto é a anestesia local. Muita gente imagina que, por ser "só local", ela não traz risco. Traz dois. O primeiro é a intoxicação pelo anestésico, que acontece quando a dose é excessiva para o peso do paciente ou quando o produto entra em um vaso. O segundo é a reação anafilática, que pode ocorrer com qualquer dose, mesmo mínima, e é uma emergência que exige atendimento intensivo imediato.
Isso vale para uma extração no dentista, para uma pequena cirurgia de pele, para a escleroterapia e para o endolaser. Sempre que houver anestesia local, o ambiente precisa estar preparado para tratar intoxicação e anafilaxia. Esse é o mínimo, e é regulado.
O que o CFM exige de um consultório que faz procedimentos
Para os médicos, quem regula é o Conselho Federal de Medicina. Pela Resolução CFM 2.056/2013, o consultório onde se usa anestesia local precisa ter, entre outros itens, um carrinho de emergência com medicações de parada e de anafilaxia, como adrenalina, oxigênio, material para via aérea e desfibrilador. Não importa se o consultório fica em um prédio comercial, em uma clínica ou dentro de um hospital: se faz o procedimento, precisa da estrutura para reverter a complicação dele.
Dentistas seguem regulação própria, do Conselho Federal de Odontologia, mas o princípio é o mesmo, porque a droga é a mesma e exige o mesmo cuidado.
Consultório, centro cirúrgico ambulatorial ou hospital?
Quando o porte do procedimento aumenta, entra um segundo regulador: a vigilância sanitária municipal e, para estruturas maiores, a estadual, seguindo as normas da Anvisa. Ela avalia o risco do procedimento e define a estrutura e os fluxos necessários para realizá-lo.
Existe uma categoria chamada centro cirúrgico ambulatorial, o chamado hospital-dia. Ele pode ficar em uma torre empresarial, desde que atenda às normas da vigilância e da Anvisa, e precisa ter, além de todos os medicamentos e equipamentos de emergência, sala de recuperação, contrato com empresa de remoção e com um hospital de referência para transferir o paciente se for necessário.
O que define onde o procedimento pode ser feito é a previsão do pós-operatório. Se o paciente pode ir para casa no mesmo dia, o centro cirúrgico ambulatorial costuma ser adequado. Se há previsão de internação, de terapia intensiva ou de necessidade de sangue e hemocomponentes, o lugar é o hospital. Quem faz esse julgamento, a partir do protocolo apresentado pelo médico, é a vigilância sanitária.
O mesmo raciocínio vale para procedimentos com sedação venosa, como endoscopia e colonoscopia, que muitas vezes são feitos em clínicas: as drogas usadas são as mesmas da cirurgia, e a clínica precisa ter condições de tratar as complicações da sedação.
O que acontece numa intercorrência: estabilizar antes de transferir
Um ponto que pouca gente conhece: quando uma intercorrência grave acontece durante um procedimento, o paciente não pode simplesmente ser colocado em uma ambulância e mandado para a UTI. Um paciente instável não é transferido. A equipe precisa ter condição de estabilizar o paciente no próprio local, com a estrutura e o conhecimento para isso, e só então transferi-lo para a terapia intensiva.
É por isso que a estrutura de emergência não é burocracia. Ela é o que dá tempo para a equipe reverter a situação. Todo profissional que faz procedimento está sujeito a intercorrências; a diferença está em ter a capacidade de resolvê-las.
Avaliação prévia e risco de trombose
Como cirurgião vascular, acrescento um item que fica fora da maioria das conversas sobre segurança: a trombose. Procedimentos estéticos, sobretudo os que envolvem imobilização, anestesia prolongada e trauma de tecidos, aumentam o risco de trombose venosa profunda e de embolia pulmonar. Fatores individuais pesam muito: uso de anticoncepcional ou reposição hormonal, obesidade, tabagismo, varizes calibrosas, histórico pessoal ou familiar de trombose.
A avaliação prévia deve estimar esse risco, com escalas como a de Caprini, e definir a prevenção: caminhar cedo, meia de compressão, hidratação e, em casos selecionados, anticoagulante profilático. Quando existe doença venosa importante, o Doppler antes do procedimento ajuda a planejar.
Checklist: o que perguntar antes de fazer
- Quem vai fazer? Peça o CRM e o RQE do médico e confira no site do CFM. O RQE comprova a especialidade. Explico a diferença entre os títulos em angiologista ou cirurgião vascular.
- O local é regularizado? Alvará da vigilância sanitária, inscrição no Conselho Regional de Medicina e nome do responsável técnico.
- Que tipo de anestesia será usada? Local, sedação ou geral, e quem vai aplicar e monitorar.
- Existe estrutura de emergência? Carrinho de parada, desfibrilador, oxigênio, medicações e equipe treinada.
- Qual é o hospital de referência? Para procedimentos de maior porte, contrato de remoção e hospital para onde você seria transferida.
- Houve avaliação prévia? História clínica, medicações, alergias, exames quando indicados e avaliação do risco de trombose.
- O pós-operatório está claro? Quem você chama, a que horas e para onde vai se algo sair do esperado.
Se alguma dessas perguntas ficar sem resposta, é sinal para parar e pensar. O bom senso de quem vai tratar você é a principal proteção.
Como cuidamos disso na Clínica VHG, em Fortaleza
Na Clínica VHG, os procedimentos vasculares, como o endolaser, a espuma densa e a escleroterapia, e os de remodelamento são feitos em consultório com anestesia local, dentro do que a regulação permite para esse ambiente, com a estrutura de emergência exigida pelo CFM e equipe treinada. Toda paciente passa por avaliação prévia com ultrassom Doppler na consulta e por estimativa do risco de trombose, e os procedimentos que exigem estrutura maior são encaminhados ao ambiente adequado. A responsabilidade técnica é do Dr. Victor Hugo, cirurgião vascular, CRM-CE 15051, RQE 9653. Pacientes de outras cidades podem tirar dúvidas por teleconsulta antes de decidir.
Perguntas frequentes
Procedimento estético em consultório é seguro?
Pode ser, desde que o local cumpra as exigências do CFM e da vigilância sanitária para o porte do procedimento: médico com registro de especialista, estrutura de emergência com carrinho de parada, desfibrilador, oxigênio e medicações, avaliação prévia do paciente e um plano para transferir em caso de intercorrência. O que torna um procedimento seguro não é o tamanho dele, e sim a capacidade da equipe de reverter uma complicação.
Anestesia local tem risco?
Sim, embora seja pequeno. A anestesia local pode causar intoxicação, se a dose ou o local da injeção forem inadequados, e reação anafilática, que pode acontecer com qualquer dose. As duas exigem atendimento imediato. Por isso qualquer local que use anestesia local, do consultório médico ao dentista, precisa estar preparado para tratar essas reações.
Como saber se a clínica é regularizada?
Pergunte pelo alvará da vigilância sanitária, pela inscrição da clínica no Conselho Regional de Medicina e pelo responsável técnico. Verifique o CRM e o RQE do médico no site do CFM. Se o procedimento envolver sedação ou porte maior, pergunte se o local é classificado como centro cirúrgico ambulatorial e qual é o hospital de referência.
O que é RQE e por que ele importa?
RQE é o Registro de Qualificação de Especialista, o número que comprova que o médico concluiu residência ou obteve título de especialista naquela área. Só quem tem RQE pode se anunciar como especialista. Um cirurgião vascular tem RQE em cirurgia vascular; é isso que garante a formação para operar e tratar veias e artérias.
Procedimento estético pode causar trombose?
Pode, principalmente quando há imobilização, anestesia prolongada, trauma de tecidos e fatores de risco individuais como uso de hormônio, obesidade, tabagismo e histórico de trombose. Por isso a avaliação prévia deve estimar o risco de trombose e definir medidas de prevenção, como deambulação precoce, meia de compressão e, em casos selecionados, anticoagulante profilático.