"Doutor, minha safena está doente. Preciso tratar?" Nem sempre. A dúvida sobre quando tratar a safena aparece toda semana no consultório, em geral depois de um ultrassom que mostrou "refluxo" ou "insuficiência" na veia. A resposta que dou é simples: para indicar o procedimento, a safena precisa cumprir dois critérios ao mesmo tempo. Se cumpre só um, o caminho é acompanhar. No vídeo explico em dois minutos; abaixo detalho cada critério.
O que a safena faz e o que é uma safena doente
A veia safena magna percorre a face interna da perna e da coxa, e a safena parva a parte de trás da panturrilha. A função das duas é a mesma: levar o sangue do pé para cima, em direção ao abdome e ao coração. Válvulas dentro da veia funcionam como comportas que impedem o sangue de descer quando você está em pé.
A safena fica doente quando essas válvulas param de fechar. Em vez de subir, o sangue escorre pela veia na direção contrária, para baixo. É isso que chamamos de refluxo. A veia deixa de ajudar a circulação e passa a atrapalhar: o sangue represado dilata a safena e transborda para as veias superficiais, que aparecem na pele como varizes e vasinhos. Detalho a anatomia e os sintomas em veia safena magna: quando e como tratar.
Critério 1: a safena precisa ter refluxo no Doppler
O primeiro critério é objetivo. A safena só entra na conversa de tratamento se o ultrassom Doppler mostrar o sangue voltando na direção errada por um tempo significativo. Nas diretrizes, considera-se refluxo patológico quando esse retorno dura mais de meio segundo nas veias superficiais.
Alguns detalhes que fazem diferença nesse exame:
- Feito em pé. Deitada, a gravidade não age sobre a veia e o refluxo pode passar despercebido.
- Com manobras de provocação. Apertar e soltar a panturrilha, ou pedir para a paciente fazer força, é o que revela se a válvula segura ou não.
- Trecho por trecho. A safena pode ter refluxo só na coxa, só na perna ou em todo o trajeto. Isso muda o planejamento.
Um ultrassom que mostra safena competente encerra a discussão: a veia é preservada, e o tratamento, se houver, será só das veias que estão de fato doentes.
Critério 2: o refluxo precisa ter consequências
Ter refluxo, sozinho, não basta. Para indicar o procedimento, a safena doente precisa estar causando algo. Na prática, procuro dois tipos de consequência:
- Sintomas: dor, peso, cansaço, queimação ou inchaço nas pernas, principalmente no fim do dia e depois de muito tempo em pé. Cãibras noturnas e coceira sobre as veias também entram aqui.
- Sinais visíveis: veias saltadas, microvarizes ou vasinhos que surgiram no território da safena, alimentados pelo refluxo dela. Em fases mais avançadas, manchas escuras, endurecimento da pele perto do tornozelo ou ferida.
Quando a paciente tem a combinação, safena com refluxo e sintomas ou veias visíveis que dependem dela, o procedimento está indicado. É o que as diretrizes europeia e americana recomendam: tratar a safena insuficiente em quem tem doença venosa sintomática ou com sinais clínicos, e não tratar um achado de exame isolado.
Quando a safena tem refluxo, mas não precisa de tratamento agora
Existe uma situação bem específica: o ultrassom mostra refluxo na safena, mas a pessoa não tem nenhum sintoma e nenhuma veia doente apareceu por causa dela. É um achado de exame, muitas vezes descoberto por acaso, num Doppler pedido por outro motivo.
Nesses casos, a conduta é acompanhar. Repetimos o ultrassom uma vez por ano ou a cada dois anos e observamos a evolução. Se no futuro começarem a surgir veias na perna ou sintomas, aí sim indicamos o tratamento. Ou seja: nem sempre a safena doente precisa ser tratada, mas sempre precisa ser acompanhada. Tratar uma safena que não está causando nada, na minha visão, é intervir sem necessidade; deixar de acompanhar é perder o momento certo.
Também vale dizer o contrário: o diâmetro da safena, sozinho, não define a indicação. Uma safena de 6 mm com refluxo e sintomas merece tratamento; uma de 8 mm sem refluxo e sem queixa, não.
Como avaliamos na Clínica VHG
Na consulta em Fortaleza, o exame físico em pé e o Doppler são feitos no mesmo dia, por mim ou pela Dra. Gabriela. Mapeamos as safenas magna e parva, as veias perfurantes e as tributárias, classificamos o quadro pela escala CEAP e cruzamos isso com o que você sente. Você sai da consulta sabendo se a sua safena cumpre os dois critérios, se o caminho é tratar ou acompanhar, e com o plano de cuidado escrito. Quem mora em outra cidade do Ceará pode começar por teleconsulta e agendar o exame e o procedimento para uma única vinda.
Como tratamos a safena quando está indicado
Quando os dois critérios estão presentes, o tratamento de primeira escolha é o endolaser: uma fibra fina introduzida por punção, guiada por ultrassom, fecha a safena por dentro com anestesia local, em consultório e sem internação. O sangue que antes ficava represado na veia doente é redirecionado para as veias saudáveis, que dão conta do retorno. As veias grossas e os vasinhos que dependiam da safena são tratados em seguida, com espuma densa, escleroterapia ou laser transdérmico, conforme o caso. Explico a sequência em etapas do tratamento de varizes. Na Clínica VHG não realizamos a cirurgia convencional com cortes; o endolaser a substituiu para praticamente todos os casos.
Quando procurar o cirurgião vascular
Procure avaliação se você já tem um laudo apontando refluxo na safena e não sabe o que fazer com ele, ou se tem veias saltadas, vasinhos que se multiplicam, peso e inchaço no fim do dia sem nunca ter feito um Doppler. Nos dois cenários, a consulta com exame resolve a dúvida no mesmo dia: ou indicamos o tratamento, ou definimos o acompanhamento. Adiar por medo de "ter que operar" costuma ser desnecessário, porque hoje o tratamento não é cirurgia.
Perguntas frequentes
Sempre que a safena está doente é preciso tratar?
Não. O procedimento é indicado quando a safena tem refluxo no ultrassom Doppler e esse refluxo está causando consequências: sintomas, como dor, peso e inchaço, ou veias visíveis que dependem dela. Refluxo sem nenhuma consequência é acompanhado com ultrassom periódico, não tratado.
Tenho refluxo na safena, mas não sinto nada. O que fazer?
Acompanhar. Se não há sintomas nem varizes ou vasinhos originados da safena, repetimos o Doppler a cada um ou dois anos. Se ao longo do tempo surgirem veias ou queixas, o tratamento passa a ser indicado. A safena doente nem sempre precisa ser tratada, mas sempre precisa ser acompanhada.
Qual exame define se a safena precisa de tratamento?
O ultrassom Doppler venoso, feito em pé e com manobras de provocação. Ele mostra se o sangue reflui pela safena, por quanto tempo e em qual trecho. Na Clínica VHG esse exame é feito na própria consulta, e o resultado é cruzado com os sintomas e com o exame físico para decidir entre tratar e acompanhar.
O tamanho da safena define a indicação?
Sozinho, não. O diâmetro ajuda a planejar a técnica e a estimar o grau de refluxo, mas a indicação depende de haver refluxo e consequências desse refluxo. Uma safena pouco dilatada com refluxo e sintomas pode precisar de tratamento; uma safena larga, sem refluxo e sem queixa, não.
Tratar a safena faz falta para a circulação?
Não, quando ela está doente. Cerca de 90% do retorno venoso da perna passa pelo sistema profundo. Ao fechar a safena com refluxo, o sangue que ficava represado nela é redirecionado para veias saudáveis, e a circulação melhora em vez de piorar.