Veia estourada na perna é o nome popular para uma mancha roxa ou um sangramento que surge de repente, com ou sem pancada. Na maioria das vezes é um vasinho rompido que some em duas ou três semanas. Mas o termo também descreve uma variz que sangrou, uma flebite ou, mais raramente, um sinal de trombose. Aqui explico como diferenciar e o que fazer.
O que as pessoas chamam de veia estourada
No consultório, quando alguém me diz "estourou uma veia na perna", quase sempre está falando de uma destas quatro situações:
- Vasinho rompido ou hematoma. Um capilar ou uma vênula superficial se rompe e o sangue infiltra a pele, formando uma mancha roxa (equimose). É o caso mais comum. Aparece na coxa, na panturrilha ou perto do tornozelo, muitas vezes ao redor de vasinhos já existentes.
- Varicorragia: a variz que sangra. Uma variz próxima à superfície, com a pele afinada por cima, se rompe e sangra para fora. O sangue é escuro, sai em fluxo contínuo e assusta pelo volume. Costuma acontecer no tornozelo ou na perna, no banho quente, ao coçar ou depois de uma pancada leve. Tenho um artigo só sobre isso em variz estourou ou sangrou: o que fazer.
- Flebite superficial. A veia não estoura: ela inflama e forma um coágulo dentro. Fica um cordão endurecido, avermelhado, quente e doloroso ao longo do trajeto da veia, às vezes com a pele ao redor mais escura.
- Ruptura de cisto de Baker ou lesão muscular. Uma dor súbita atrás do joelho ou uma "pedrada" na panturrilha, seguida de inchaço e de um roxo que desce até o tornozelo dias depois, parece veia estourada. Na verdade é o líquido de um cisto que se rompeu ou o sangue de uma fibra muscular lesada. O Doppler diferencia isso de trombose em minutos.
Veia estourada na perna: causas
Uma veia ou um vasinho se rompe quando a parede é frágil demais para a pressão que recebe. Os fatores que mais vejo na prática são:
- Varizes e vasinhos com refluxo. Quando uma safena ou uma veia nutridora tem refluxo, a pressão dentro dos vasinhos e das microvarizes fica alta demais, e eles se rompem com estímulos mínimos. É a causa mais importante de repetição no mesmo lugar.
- Pele fina e fragilidade capilar. Idade, sol acumulado e uso prolongado de corticoide deixam a pele e a parede dos capilares mais finas.
- Pequenos traumas. Bater a perna no canto da cama, apoiar o joelho, coçar.
- Medicamentos. Anticoagulantes, ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios e corticoides aumentam a chance de roxos e de sangramento.
- Hormônios. Estrogênio, gestação e reposição hormonal deixam as veias mais dilatadas e a parede mais frouxa.
- Esforço com prensa abdominal. Agachamento pesado, tosse forte ou prisão de ventre elevam a pressão nas veias das pernas de forma brusca.
- Lipedema. Mulheres com lipedema têm roxos fáceis nas coxas e nas pernas, mesmo sem pancada, por fragilidade dos capilares do tecido doente.
- Alterações da coagulação ou das plaquetas. São raras, mas entram na investigação quando os roxos aparecem em várias partes do corpo, junto com sangramento de gengiva ou menstruação muito intensa.
Roxo na perna sem bater é veia estourada?
Geralmente sim, e geralmente é benigno. Um roxo isolado, de poucos centímetros, que aparece na coxa ou na perna sem lembrança de pancada, costuma ser um capilar ou vasinho rompido por um trauma mínimo ou pela pressão de uma veia com refluxo.
O que muda a conduta é o padrão. Vale investigar quando os roxos são muitos e recorrentes, aparecem no tronco ou na parte interna dos braços, vêm com sangramento de gengiva ou nariz, ou surgem depois de um remédio novo. Nesses casos peço hemograma e coagulograma além do exame vascular. Quando os roxos se concentram nas pernas de uma mulher com coxas desproporcionais e dor ao toque, o que investigo é lipedema.
Veia estourada sangrando: o que fazer agora
Se a veia estourou e está sangrando para fora, a sequência é simples e funciona porque o sangramento venoso é de baixa pressão:
- Deite e eleve a perna acima do nível do coração. Só isso já reduz muito o fluxo.
- Comprima o ponto com um pano limpo ou gaze, pressão firme e contínua por 10 a 15 minutos, sem levantar para olhar. Não use torniquete nem amarre a perna.
- Não aplique pó de café, açúcar, pasta de dente ou qualquer receita caseira.
- Depois que parar, faça um curativo levemente compressivo e mantenha a perna elevada por algumas horas. Evite banho quente naquele dia.
- Procure atendimento no mesmo dia se o sangramento não parar em 15 minutos de compressão, se você usa anticoagulante, se sentir tontura ou se a quantidade de sangue foi grande.
Passado o susto, marque uma avaliação com o cirurgião vascular nos dias seguintes. A variz que sangrou uma vez tende a sangrar de novo, porque a pele por cima dela continua fina e a pressão de dentro continua alta. O tratamento da causa é o que evita a repetição.
Veia estourada no pé, na mão, no braço
No pé e no tornozelo. Vasinhos em leque na face interna do tornozelo e no pé, chamados de coroa flebectásica, indicam pressão venosa elevada por refluxo mais acima, em geral na safena. Quando eles rompem ou sangram, o problema não está no pé, e sim na veia que os alimenta. Também vale lembrar que pés roxos e frios são outra queixa, ligada mais à circulação arterial e ao frio do que a veias estouradas.
Na mão. As veias das mãos ficam logo abaixo da pele e se rompem com pancadas leves ou depois de uma coleta de sangue, formando um hematoma que some em uma ou duas semanas. Existe também um quadro benigno, a síndrome de Achenbach, em que um dedo fica roxo e dolorido de repente, sem trauma, e melhora sozinho em poucos dias.
No braço. A causa mais frequente é a flebite depois de um acesso venoso para soro ou medicação, que deixa um cordão duro e dolorido na veia. Explico como cuidar em flebite no braço por acesso venoso.
Quando é sinal de varizes ou trombose
A veia estourada é um aviso de que a circulação venosa da perna pode estar sob pressão. Alguns sinais apontam para varizes por trás do episódio:
- Vasinhos ou microvarizes ao redor da mancha, principalmente na face interna da coxa e da perna;
- Veias saltadas visíveis em pé, que somem ou diminuem ao deitar;
- Peso, cansaço, inchaço ou coceira nas pernas no fim do dia;
- Sangramento ou roxo que repete sempre no mesmo ponto;
- Pele escurecida ou endurecida perto do tornozelo.
A trombose é outra história. Na trombose venosa profunda não costuma haver mancha roxa: a perna incha inteira ou da panturrilha para baixo, fica dolorida, mais quente e às vezes avermelhada, e o quadro é de um lado só. Isso é urgência e precisa de Doppler no mesmo dia. Já a flebite superficial, aquela do cordão endurecido, é uma trombose de veia superficial: menos perigosa, mas precisa de avaliação porque em parte dos casos ela se estende para o sistema profundo. Detalho as diferenças em flebite ou trombose: como diferenciar e em trombose venosa profunda.
Procure atendimento sem esperar se, além do roxo ou do sangramento, houver inchaço de uma perna só, dor na panturrilha ao caminhar ou ao apertar, falta de ar ou dor no peito.
Como o vascular avalia (Doppler)
A avaliação começa com a história: como apareceu, se doeu, se sangrou, quais remédios você usa, se há varizes na família. Depois vem o exame em pé, para ver as veias sob a pressão real do dia a dia. Em seguida faço o ultrassom Doppler venoso na própria consulta, com dois objetivos: afastar trombose, superficial ou profunda, e mapear de onde vem a pressão que rompeu o vasinho, seja um refluxo na safena, em uma perfurante ou em uma veia nutridora. Nos vasinhos e microvarizes, o VeinViewer, um aparelho de infravermelho, mostra as veias nutridoras que o olho não vê.
Tratamento e como evitar que volte
A mancha roxa não precisa de remédio. Nas primeiras 48 horas, compressa fria por alguns minutos ajuda a limitar o extravasamento; depois disso, compressa morna acelera a reabsorção. Evite massagem forte no local, mantenha a perna elevada quando puder e use meia de compressão se você já tem varizes. O roxo some em duas a três semanas. Se sobrar uma mancha acastanhada, é depósito de hemossiderina, que tende a clarear com o tempo e pode ser tratada com laser específico quando persiste.
A causa é o que define o tratamento e o que evita a repetição:
- Vasinhos e microvarizes até 3 mm: escleroterapia, com glicose ou polidocanol conforme o caso, tratando também a veia nutridora identificada no VeinViewer. O laser transdérmico complementa nos vasinhos mais finos.
- Veias calibrosas que sangraram: espuma densa guiada por ultrassom, feita em consultório, que fecha a veia de dentro para fora.
- Refluxo na safena: endolaser, com anestesia local e sem internação, que elimina a fonte de pressão de toda a rede abaixo dela.
Tratar o refluxo é o que faz diferença a longo prazo. Sem isso, a pele sobre as varizes continua afinando e o próximo sangramento é questão de tempo. Hidratação diária da pele, atividade física e peso sob controle completam o cuidado. Explico todas as opções em tratamento de varizes em Fortaleza.
Perguntas frequentes
Veia estourada na perna é grave?
Na maioria das vezes não. Um vasinho rompido ou um pequeno hematoma some sozinho em duas ou três semanas. Merece atendimento no mesmo dia quando o sangramento não para com compressão e elevação da perna, quando a perna incha e dói de um lado só, o que sugere trombose, ou quando os roxos se repetem em vários locais do corpo.
O que fazer quando a veia estoura?
Se estiver sangrando, deite, eleve a perna acima do coração e comprima o ponto com um pano limpo por 10 a 15 minutos, sem torniquete. Se for só um roxo, compressa fria nas primeiras 48 horas e depois morna. Nos dois casos, marque uma avaliação com o cirurgião vascular para descobrir por que a veia se rompeu e evitar que aconteça de novo.
Veia estourada some sozinha?
A mancha roxa some sozinha, em geral em duas a três semanas, passando por tons esverdeados e amarelados. O que não some sozinho é a causa: a variz ou o refluxo que deixou o vasinho sob pressão continuam lá e tendem a provocar novos episódios até serem tratados.
Veia estourada pode ser trombose?
A mancha roxa em si raramente é trombose. A trombose venosa profunda se apresenta com inchaço, dor e calor em uma perna só, sem roxo típico. Já a flebite superficial, um cordão endurecido e dolorido sobre a veia, é uma trombose de veia superficial e muita gente a chama de veia estourada. Em caso de dúvida, o ultrassom Doppler resolve no mesmo dia.
Por que as veias estouram?
Porque a parede está frágil demais para a pressão que recebe. As causas mais comuns são varizes e vasinhos com refluxo, pele fina pela idade ou por corticoide, pequenos traumas, anticoagulantes e anti-inflamatórios, hormônios e esforços com prensa abdominal. No lipedema, a fragilidade dos capilares provoca roxos fáceis nas pernas mesmo sem pancada.