"Doutor, minhas pernas incham." Essa frase abre boa parte das minhas consultas, e a resposta nunca é a mesma, porque inchaço não é diagnóstico: é sinal. Como cirurgião vascular, meu trabalho é descobrir se o líquido se acumula porque as veias não drenam, porque os vasos linfáticos falham, porque coração, rins ou fígado estão sobrecarregados, ou porque um remédio está causando isso. Este guia percorre as causas, explica como o médico classifica o edema e mostra o que realmente funciona para desinchar.
Pernas inchadas: o que pode ser
Quatro perguntas separam a maior parte das causas: é nas duas pernas ou em uma só? Some ao acordar? Vem com outros sintomas (falta de ar, urina espumosa, febre)? Começou depois de algum remédio novo?
| Causa | Como costuma ser | Pistas que acompanham |
|---|---|---|
| Insuficiência venosa e varizes | Duas pernas, no tornozelo, piora no fim do dia, no calor e em pé; melhora deitado | Peso, varizes, vasinhos, coceira, manchas escuras no tornozelo |
| Linfedema | Uma ou duas pernas; não some pela manhã; pega o dorso do pé e os dedos | Pele grossa, erisipelas de repetição, cirurgia ou radioterapia prévia |
| Lipedema | Simétrico, do quadril ao tornozelo, poupa os pés; é gordura, não só líquido | Dor ao toque, roxos fáceis, não melhora com dieta, quase só em mulheres |
| Coração (insuficiência cardíaca) | Duas pernas, deixa marca do dedo, sobe com o tempo | Falta de ar ao esforço ou deitado, cansaço, ganho rápido de peso |
| Rins | Duas pernas, com inchaço ao redor dos olhos pela manhã | Urina espumosa, pressão alta, diabetes |
| Fígado | Duas pernas, com barriga inchada (ascite) | Olhos amarelados, álcool, hepatite |
| Medicamentos | Duas pernas, começa semanas após iniciar o remédio | Anlodipino, nifedipino, anti-inflamatórios, corticoides, pioglitazona, hormônios, pregabalina, gabapentina |
| Gravidez | Duas pernas, mais no terceiro trimestre | Alerta se súbito, com pressão alta, dor de cabeça ou de um lado só |
| Calor, posição e viagem longa | Duas pernas, depois de horas sentado ou em pé; some com elevação | Voos, dias quentes, trabalho em pé |
| Trombose venosa profunda | Uma perna só, súbito, com dor e calor | Cirurgia, imobilização, anticoncepcional, viagem recente. Urgência |
| Outras | Hipotireoidismo, proteína baixa no sangue, obesidade, infecção da pele, cisto de Baker rompido, lesão muscular | O exame físico direciona |
A causa mais comum: as veias
Quando as válvulas das veias falham, o sangue reflui e a pressão dentro delas sobe. Parte do líquido é empurrada para fora do vaso e se acumula no tornozelo. Como a gravidade piora o refluxo, o inchaço venoso é mínimo pela manhã e máximo à noite, e piora no calor, na gravidez e antes da menstruação. Nem sempre há varizes visíveis: o refluxo pode estar em veias profundas ou numa safena que não aparece por fora.
Linfedema e lipedema: os dois que confundem
O sistema linfático é o "esgoto" das proteínas que escapam dos vasos. Quando falha, por causa congênita, após cirurgia ou infecções repetidas, o líquido fica preso e a pele engrossa: é o linfedema, que não desaparece com uma noite de sono e incha o dorso do pé e os dedos. O lipedema não é excesso de líquido, mas de gordura doente, simétrica, dolorosa ao toque, que poupa os pés e resiste a dietas. Os dois podem coexistir com a insuficiência venosa; veja lipedema, linfedema ou obesidade e como saber se tenho lipedema.
Coração, rins, fígado e tireoide
Nessas causas o inchaço é sempre nas duas pernas e vem com sinais fora delas. Na insuficiência cardíaca, o sangue represa nas veias: falta de ar ao deitar, mais travesseiros e ganho rápido de peso são o alerta. Nos rins, a perda de proteína pela urina (que fica espumosa) reduz a capacidade do sangue de segurar o líquido nos vasos; no fígado, o mesmo mecanismo se soma à ascite. O hipotireoidismo produz um inchaço firme, que não deixa marca do dedo.
Medicamentos: o anlodipino e companhia
Causa muito subestimada. O anlodipino e os demais bloqueadores de canal de cálcio dilatam as arteríolas e aumentam a pressão nos capilares, gerando inchaço em até um em cada quatro pacientes, mais em mulheres e em doses altas. Anti-inflamatórios e corticoides retêm sódio; pioglitazona, pregabalina, gabapentina e hormônios também incham. Quando o inchaço começou semanas depois de um remédio novo, a resposta pode estar na receita, e a solução é ajustar com quem prescreveu, não somar um diurético.
Leia também: Má circulação nas pernas · Lipedema: o que é, sintomas e tratamento · Varizes na gravidez
Perna inchada de um lado só
Inchaço em uma perna só muda a lista de suspeitos, porque coração, rins, fígado e remédios incham os dois lados. Três causas precisam ser afastadas primeiro:
- Trombose venosa profunda (TVP). Um coágulo entope uma veia interna e o sangue não volta. A perna incha em horas ou dias, dói na panturrilha ou na coxa, fica quente e às vezes arroxeada. O escore de Wells estima a probabilidade, o D-dímero ajuda a afastar nos casos de baixa probabilidade e o Doppler venoso confirma (NICE NG158). O tratamento é anticoagulação. Veja trombose venosa profunda e anticoncepcional e trombose.
- Erisipela e celulite infecciosa. Bactérias entram por uma frieira ou rachadura e infectam a pele: placa vermelha, quente e dolorosa, com febre, muitas vezes em quem já tem linfedema ou inchaço venoso. Precisa de antibiótico. Leia erisipela: o que é, sintomas e tratamento.
- Cisto de Baker rompido ou lesão muscular. Imitam trombose, com dor e inchaço súbitos de um lado. O Doppler diferencia.
Fora da fase aguda, perna inchada de um lado só há meses sugere insuficiência venosa assimétrica, síndrome pós-trombótica, linfedema de um membro ou compressão de veia na pelve. A regra prática: inchaço novo, de uma perna só e doloroso é para ser visto no mesmo dia. Como diferenciar de uma veia superficial inflamada está em flebite ou trombose.
Edema nas pernas: o que é e como o médico classifica
Edema é o nome técnico do inchaço: acúmulo de líquido entre as células. Aparece quando a pressão nos capilares sobe (veias, coração, remédios), quando faltam proteínas no sangue (rins, fígado, desnutrição), quando o vaso fica mais "poroso" (inflamação, infecção) ou quando a drenagem linfática falha. No exame, procuro quatro coisas:
- Cacifo. Pressiono com o polegar sobre a canela por cinco segundos. Se fica uma depressão, o edema é "com cacifo", típico das causas venosa, cardíaca, renal e medicamentosa; profundidade e tempo de retorno graduam de 1+ a 4+. Edema que não deixa marca aponta para linfedema avançado, lipedema ou hipotireoidismo.
- Distribuição. Um lado ou dois; se pega o pé e os dedos (sinal de Stemmer positivo sugere linfedema); se poupa os pés (lipedema).
- Pele. Manchas acastanhadas, eczema, endurecimento e feridas no tornozelo indicam doença venosa avançada.
- Pulsos e temperatura. Para saber se a compressão pode ser usada com segurança.
Na doença venosa, o inchaço tem lugar próprio na classificação CEAP 2020, adotada pelas diretrizes ESVS 2022 e pela SBACV: C0 sem sinais visíveis, C1 vasinhos, C2 varizes, C3 edema, C4 alterações de pele, C5 úlcera cicatrizada e C6 úlcera aberta. Pernas inchadas de causa venosa (C3) são o degrau entre as varizes e as lesões de pele, e um bom motivo para tratar o refluxo antes que a pele sofra. No linfedema, usa-se o estadiamento da Sociedade Internacional de Linfologia (0 a III).
Como desinchar as pernas: o que funciona de verdade
As medidas abaixo tratam o inchaço venoso, postural e, com adaptações, o linfático. Não substituem tratar coração, rins ou fígado, nem a anticoagulação de uma trombose.
- Elevar as pernas acima do coração. 15 a 20 minutos, duas a três vezes por dia. À noite, calços de 10 a 15 cm sob os pés da cama fazem mais que um travesseiro sob os joelhos.
- Meia de compressão graduada. A medida com mais evidência para o edema venoso (ESVS 2022). Colocar ao acordar, antes de a perna inchar, na compressão prescrita (em geral 15-20 ou 20-30 mmHg) e após confirmar que as artérias estão boas. No linfedema, a fase inicial usa enfaixamento. Aprenda em meia de compressão: como usar e como calçar a meia de compressão.
- Ativar a panturrilha. Caminhar 30 minutos por dia, subir escadas, ficar na ponta dos pés quando precisar ficar parado; no avião ou no escritório, flexionar os tornozelos a cada hora.
- Menos sal. A OMS recomenda menos de 5 g de sal por dia. Os vilões são os industrializados: embutidos, temperos prontos, salgadinhos, molhos. Reduzir álcool também ajuda.
- Revisar os remédios. Leve a lista completa à consulta. Trocar o anlodipino por outra classe ou suspender um anti-inflamatório costuma resolver o que nenhum diurético resolvia.
- Evitar calor e controlar o peso. Banhos muito quentes, sauna e sol dilatam as veias; cada quilo a mais aumenta a pressão venosa no tornozelo.
- Drenagem linfática manual. Tem papel definido no linfedema e no lipedema, como parte da terapia descongestiva com fisioterapeuta treinado. No inchaço venoso, o efeito é temporário e não substitui a compressão.
- Flebotônicos. A ESVS 2022 considera razoável usar diosmina e outros venoativos para sintomas e edema; ajudam, mas não consertam a válvula.
O que evitar: diurético por conta própria (desidrata, não trata veia nem linfa e piora o lipedema), "remédio para desinchar" sem diagnóstico, massagem vigorosa em perna inchada de um lado só e chás como substitutos de avaliação.
Quando o inchaço é urgência
- Inchaço de uma perna só, súbito, com dor ou calor: suspeita de trombose, atendimento no mesmo dia.
- Inchaço com falta de ar, dor no peito ou desmaio: embolia pulmonar ou insuficiência cardíaca descompensada, emergência.
- Placa vermelha e quente com febre: erisipela.
- Na gravidez, inchaço súbito com dor de cabeça, pressão alta ou visão embaçada: pré-eclâmpsia, procure a maternidade.
- Ganho de mais de 2 kg em poucos dias, urina muito reduzida ou espumosa; pele tensa, brilhante, com bolhas ou ferida.
Exames para pernas inchadas
- Ultrassom Doppler venoso: mostra refluxo nas veias superficiais e profundas, afasta ou confirma trombose e identifica sequela de tromboses antigas. Faço na própria consulta; veja ultrassom Doppler venoso em Fortaleza.
- Índice tornozelo-braço na suspeita de doença arterial ou antes de prescrever compressão em quem tem diabetes ou fuma.
- Sangue e urina: creatinina, albumina, proteína na urina, TSH, hemograma; BNP e ecocardiograma na suspeita cardíaca; D-dímero na suspeita de trombose.
- Linfocintilografia quando o diagnóstico de linfedema exige; bioimpedância e medidas de circunferência para acompanhar a resposta ao tratamento.
Tratamento das pernas inchadas conforme a causa
Venosa: compressão, elevação, atividade física e, quando o Doppler mostra refluxo importante, tratar a veia doente. A ESVS 2022 recomenda corrigir o refluxo nas safenas em pacientes sintomáticos, e o edema costuma responder bem: endolaser para as safenas, espuma densa para veias calibrosas e escleroterapia para microvarizes, em consultório, sem internação. As opções estão em tratamento de varizes em Fortaleza.
Linfedema: terapia descongestiva complexa (drenagem manual, enfaixamento, exercícios e cuidados com a pele), seguida de meia de manutenção e prevenção rigorosa de erisipela. Não tem cura, mas tem controle.
Lipedema: compressão, terapia física, exercício de baixo impacto e nutrição; cirurgia redutora, que preserva os vasos linfáticos, avaliada em casos selecionados.
Cardíaca, renal ou hepática: tratamento da doença de base com cardiologista, nefrologista ou hepatologista; diuréticos entram aqui, com prescrição. Medicamentosa: ajuste ou troca com quem prescreveu. Trombose: anticoagulação por, no mínimo, três meses. Erisipela: antibiótico, perna elevada e tratamento da porta de entrada. Gravidez: compressão, elevação, caminhada e acompanhamento com o obstetra.
Quando procurar o cirurgião vascular
- Inchaço que se repete há mais de duas semanas, mesmo que suma pela manhã;
- Inchaço com varizes, peso, manchas ou ferida no tornozelo;
- Inchaço que não melhora com elevação, ou pernas desproporcionais e doloridas ao toque;
- Inchaço de uma perna só: no mesmo dia, em pronto-atendimento se não houver vaga;
- Já teve trombose ou erisipela e a perna continua inchada.
Perguntas frequentes
Pernas inchadas o que pode ser?
As causas mais comuns são insuficiência venosa e varizes, linfedema, lipedema, insuficiência cardíaca, doença dos rins ou do fígado, medicamentos como o anlodipino, gravidez, calor, muitas horas sentado ou em pé e trombose. Inchaço nas duas pernas que some pela manhã costuma ser venoso; de uma perna só e súbito, trombose; com falta de ar, coração.
Perna inchada é sinal de quê?
Perna inchada de um lado só é sinal de que algo está acontecendo naquela perna: trombose venosa profunda, erisipela, cisto de Baker rompido, lesão muscular ou insuficiência venosa assimétrica. Se o inchaço é novo, doloroso ou quente, precisa de avaliação com Doppler no mesmo dia para afastar trombose.
Como desinchar as pernas rápido?
Deite com as pernas acima do coração por 20 minutos e depois caminhe 10 minutos: é o alívio mais rápido para o inchaço venoso ou postural. Para o dia seguinte, coloque a meia de compressão ao acordar, reduza o sal e evite ficar parado em pé. Se o inchaço é de uma perna só ou vem com falta de ar, não tente desinchar em casa: procure atendimento.
Inchaço nas pernas pode ser coração?
Pode. Na insuficiência cardíaca o inchaço é nas duas pernas, deixa marca do dedo, sobe com o tempo e vem com falta de ar ao esforço ou ao deitar, cansaço e ganho rápido de peso. Inchaço sem esses sinais, que some pela manhã, raramente é do coração. Na dúvida, o cardiologista pede BNP e ecocardiograma.
Edema nas pernas tem cura?
Depende da causa. O edema por remédio, calor, viagem ou gravidez desaparece quando a causa passa. O edema venoso melhora muito, e às vezes some, ao tratar o refluxo e usar compressão. Linfedema e lipedema não têm cura, mas têm controle duradouro com tratamento correto. O edema cardíaco, renal ou hepático acompanha o controle da doença de base.
Anlodipino incha as pernas?
Sim, é um dos efeitos colaterais mais frequentes, presente em até um em cada quatro usuários, mais em mulheres e em doses maiores. O inchaço aparece semanas após o início, nas duas pernas, e não responde bem a diuréticos. Converse com quem prescreveu sobre reduzir a dose ou trocar de classe; nunca suspenda por conta própria.