Saúde Vascular

Dor nas pernas: o que pode ser e quando procurar o cirurgião vascular

Em resumo: dor nas pernas pode vir das veias (varizes e insuficiência venosa), das artérias (má circulação arterial), de uma trombose, dos nervos e da coluna, dos músculos, das articulações ou do lipedema. O tipo de dor, o horário em que aparece e o que a alivia apontam a causa. Dor súbita com inchaço de uma perna só, ou dor noturna com pé frio e pálido, é urgência.

Dor nas pernas é uma das queixas mais comuns do meu consultório, e quase sempre chega com a pergunta: "isso é circulação?". Às vezes é; muitas vezes não. Como cirurgião vascular, meu papel é separar o que é veia, artéria ou trombose do que é coluna, músculo ou articulação, porque cada causa tem um tratamento diferente. Este guia explica como fazer essa separação, o que é urgência e o que investigo na consulta.

Dor nas pernas: o que pode ser

Antes de qualquer exame, eu quero saber três coisas: como é a dor (peso, queimação, pontada, choque), quando aparece (fim do dia, ao caminhar, à noite, de repente) e o que a alivia (deitar, parar de andar, pendurar a perna, mexer). A tabela resume os padrões mais frequentes.

Como é a dorCausa mais provávelPistas que acompanham
Peso, cansaço ou queimação que piora no fim do dia, no calor e em pé; melhora deitado com as pernas para cimaVenosa (varizes, insuficiência venosa crônica)Inchaço no tornozelo, vasinhos ou varizes, coceira, manchas escuras
Dor na panturrilha (ou coxa e glúteo) sempre depois de andar a mesma distância; passa em minutos paradoArterial (claudicação intermitente)Pé frio, pulsos fracos, tabagismo, diabetes, colesterol alto
Dor em repouso, pior à noite deitado, que melhora ao pendurar o pé para fora da camaArterial grave (isquemia crítica)Pé pálido ou arroxeado, ferida que não fecha. Urgência
Dor com inchaço quente de uma perna só, que começou em horas ou poucos diasTrombose venosa profundaPanturrilha endurecida, cirurgia ou viagem recente, anticoncepcional, gravidez. Urgência
Queimação, formigamento, choque ou dormência; dor que desce da lombar pela parte de trás da pernaNeurológica (coluna, ciático, neuropatia diabética)Piora ao sentar ou curvar, fraqueza, perda de sensibilidade no pé
Dor localizada que piora ao mexer e ao apertar o músculo ou tendãoMuscular ou tendíneaExercício novo, esforço, pancada; uso de estatina
Contração súbita e dolorosa da panturrilha, em geral à noite, que passa ao alongarCãibraDesidratação, exercício, diuréticos, gravidez
Dor difusa em várias partes do corpo, cansaço e sono ruimFibromialgiaExames vasculares normais; avaliação com reumatologista
Dor ao toque leve, pernas desproporcionais ao tronco, roxos fáceisLipedemaMulheres, não melhora com dieta, pés poupados
Dor no joelho, quadril ou tornozelo com rigidez ao levantarArticular (artrose, artrite)Inchaço na articulação, piora ao subir escada

Dor venosa: a mais comum no consultório

Quando as válvulas das veias falham, o sangue reflui e fica represado na perna. A pressão dentro das veias sobe e gera peso, cansaço, queimação e latejamento no fim do dia. A dor venosa não impede de andar; ao contrário, caminhar alivia, porque a panturrilha bombeia o sangue de volta. A classificação CEAP 2020 reconhece esses sintomas mesmo sem varizes visíveis (estágio C0s): é a paciente que sente as pernas pesadas e "não tem nada" a olho nu.

Dor arterial: a que aparece ao caminhar

Aqui o problema é sangue que não chega. Placas de gordura e cálcio estreitam as artérias e o músculo, em esforço, fica sem oxigênio. É a claudicação intermitente: dor na panturrilha sempre depois da mesma distância, que some em minutos de repouso. Fumo, diabetes, hipertensão e colesterol alto são os responsáveis. Quando a dor passa a existir em repouso, a perna está em risco.

Trombose: a dor que não pode esperar

Na trombose venosa profunda (TVP), um coágulo entope uma veia interna. A dor é na panturrilha ou na coxa, com inchaço, calor e endurecimento de uma perna só, e o risco é o coágulo ir para o pulmão. Cirurgia recente, imobilização, viagem longa, gravidez, anticoncepcional e câncer aumentam a chance. Veja como diferenciar de uma veia superficial inflamada em flebite ou trombose.

Nervos, coluna, músculos e outras causas

Hérnia de disco e estreitamento do canal lombar comprimem raízes nervosas e produzem dor que desce pelo glúteo até o pé, com formigamento e choque; a neuropatia do diabetes causa queimação simétrica nos pés, pior à noite. Nos dois casos os exames vasculares são normais (leia queimação nas pernas). Estiramentos, sobrecarga de treino, tendinite e artrose explicam boa parte das dores localizadas. Há ainda causas "de fora da perna": estatinas, hipotireoidismo, deficiência de vitamina D, anemia por falta de ferro e a síndrome das pernas inquietas. E existe o lipedema, gordura doente nas pernas, quase exclusiva de mulheres, em que dor ao toque e roxos fáceis são a marca registrada.

Leia também: Má circulação nas pernas · Queimação nas pernas · Como saber se tenho lipedema

Dor na perna direita ou esquerda: faz diferença?

O lado, por si só, não define a causa. O que importa é se a dor é de um lado ou dos dois, e como começou. Dor venosa, neuropatia, fibromialgia e lipedema tendem a acometer as duas pernas, mesmo que uma incomode mais. Dor de uma perna só que surgiu de repente, com inchaço e calor, é trombose até prova em contrário, na direita ou na esquerda.

Uma particularidade: a veia ilíaca esquerda passa por baixo da artéria ilíaca direita e pode ser comprimida por ela (síndrome de May-Thurner), por isso trombose e varizes são um pouco mais frequentes na perna esquerda. A dor na perna direita, quando unilateral e aguda, tem as mesmas suspeitas: trombose, lesão muscular, ciático ou obstrução arterial daquele lado. A pergunta certa não é "por que a direita?", e sim "por que só uma?".

Muita dor nas pernas: quando é urgência

Duas situações precisam de pronto-atendimento no mesmo dia, sem esperar consulta marcada:

  • Suspeita de trombose venosa profunda: inchaço de uma perna só, dor na panturrilha ou na coxa, pele quente, avermelhada ou arroxeada, sobretudo após cirurgia, imobilização, viagem longa, na gravidez ou no uso de anticoncepcional. Com falta de ar, dor no peito ou desmaio, chame a emergência: pode ser embolia pulmonar.
  • Isquemia aguda (artéria entupida de repente): dor intensa e súbita, pé pálido ou marmorizado, muito frio, com dormência ou dificuldade de mexer os dedos. Cada hora conta para salvar a perna.

Também merecem atendimento rápido: placa vermelha, quente e dolorosa com febre (erisipela); dor forte após queda sem conseguir apoiar o pé; e dor noturna com ferida no pé em quem tem diabetes ou fuma. O que vejo com frequência é o paciente esperar "passar sozinho", e é justamente nesses casos que o tempo faz diferença.

Leia também: Trombose venosa profunda · Flebite ou trombose: como diferenciar · Pernas inchadas: o que pode ser

Dor nas pernas à noite

Na dor noturna, o que alivia entrega a causa:

  • Melhora ao elevar as pernas: origem venosa.
  • Melhora ao pendurar a perna para fora da cama: origem arterial. É o sinal mais importante desta lista e exige avaliação vascular em poucos dias.
  • Melhora ao mexer as pernas ou andar: síndrome das pernas inquietas, condição neurológica ligada muitas vezes à falta de ferro. Não é doença de veia.
  • Contração súbita que passa ao alongar: cãibra. Verifique hidratação, diuréticos e estatinas.
  • Dor ao virar na cama ou ao toque do lençol: articular no primeiro caso; lipedema ou neuropatia no segundo.

Dor nas pernas e varizes: a ligação com a má circulação

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Dor e esquentamento na perna não são normais — o Dr. Victor Hugo explica.

"Má circulação" é um termo popular que mistura dois problemas opostos: na doença venosa o sangue tem dificuldade de sair da perna; na arterial, de chegar. Sintomas, exames e tratamento são diferentes (explico em má circulação nas pernas).

Nas varizes, a dor faz parte da doença. As diretrizes ESVS 2022 descrevem os sintomas da insuficiência venosa: dor, peso, sensação de inchaço, cãibras, coceira e cansaço, que pioram ao longo do dia, no calor e em pé, e melhoram com repouso, elevação e compressão. Quando o refluxo está em uma safena, a dor segue o trajeto dela, na face interna da coxa e da perna. Corrigir o refluxo, e não só os sintomas, é o que muda o quadro; veja as opções em tratamento de varizes em Fortaleza.

Como o cirurgião vascular investiga a dor nas pernas

  1. História detalhada. Horário, gatilho e alívio da dor; distância que consegue andar; remédios; cirurgias, viagens e imobilizações recentes; anticoncepcional; diabetes, tabagismo e histórico de trombose.
  2. Exame físico. Perna em pé e deitada (varizes, inchaço, cor, temperatura, feridas), pulsos na virilha, atrás do joelho e no pé, palpação da panturrilha, cacifo e sensibilidade.
  3. Índice tornozelo-braço (ITB). Pressão do tornozelo dividida pela do braço, medida com Doppler portátil. Valor de 0,90 ou menos indica doença arterial; acima de 1,40 sugere artérias calcificadas e pede outros exames.
  4. Ultrassom Doppler venoso. Mostra refluxo nas veias superficiais e profundas e afasta ou confirma trombose. Na suspeita de TVP, a diretriz NICE NG158 combina escore de Wells, D-dímero e Doppler. Faço o exame na própria consulta; saiba mais em ultrassom Doppler venoso em Fortaleza.
  5. Doppler arterial ou angiotomografia quando o ITB está alterado; exames de sangue conforme o caso (glicemia, TSH, ferritina, vitamina D, CK).

Se a investigação vascular é normal, isso já é uma resposta: a dor tem outra origem e eu encaminho para ortopedia, neurologia ou reumatologia com o caminho encurtado.

Tratamento conforme a causa

Venosa: compressão graduada, elevação, atividade física (a panturrilha é o "segundo coração") e controle do peso. A ESVS 2022 considera razoável usar flebotônicos, como a diosmina, para sintomas e inchaço, mas eles não corrigem a veia. Quando o Doppler mostra refluxo importante, tratar a veia doente é o que resolve: endolaser para as safenas e tributárias, espuma densa como complemento em veias selecionadas e escleroterapia para microvarizes, em consultório. Veja meia de compressão: como usar.

Arterial: parar de fumar é o que mais muda o prognóstico. Somam-se caminhada supervisionada (andar até a dor, parar, repetir, 30 a 45 minutos, três vezes por semana), estatina, antiagregante e controle de diabetes e pressão. Angioplastia ou ponte ficam para a isquemia crítica e para a claudicação que limita a vida apesar do tratamento clínico (ESVS 2024).

Trombose: anticoagulação por, no mínimo, três meses, com duração definida pela causa; compressão para os sintomas; plano de prevenção para cirurgias, viagens e hormônios.

Nervo, músculo e articulação: fisioterapia, fortalecimento e, quando indicado, medicação para dor neuropática ou anti-inflamatório por tempo curto, com ortopedista, neurologista ou reumatologista. Cãibras respondem a hidratação, alongamento antes de dormir e revisão de diuréticos.

Lipedema: compressão, terapia física, exercício de baixo impacto e nutrição; cirurgia redutora avaliada em casos selecionados. O diagnóstico correto, por si só, alivia quem ouviu durante anos que "era só emagrecer".

Em casa, enquanto investiga: elevar as pernas 15 a 20 minutos no fim do dia, caminhar diariamente, alongar a panturrilha antes de dormir, evitar calor excessivo. Não massagear com força uma perna inchada e dolorida de um lado só (se for trombose, pode soltar o coágulo) e não usar anti-inflamatório por conta própria por mais de poucos dias.

Quando procurar o cirurgião vascular

  • Dor que se repete há mais de duas semanas, principalmente com peso, inchaço, varizes ou manchas;
  • Dor na panturrilha ao caminhar que some ao parar;
  • Dor noturna que melhora ao pendurar a perna;
  • Ferida no pé ou tornozelo que não fecha em duas semanas;
  • Dor com inchaço de uma perna só: no mesmo dia, em pronto-atendimento se não houver vaga.

Perguntas frequentes

Dor nas pernas o que pode ser?

As causas mais comuns são insuficiência venosa e varizes (peso no fim do dia), doença arterial (dor ao caminhar que passa em repouso), trombose (dor com inchaço de uma perna só), coluna e nervos (queimação, choque, formigamento), lesões musculares, cãibras, artrose, fibromialgia e lipedema (dor ao toque). O padrão da dor e o que a alivia orientam o diagnóstico.

Dor na perna direita o que pode ser?

O lado não muda as causas possíveis. O que importa é a dor ser de uma perna só e ter começado de repente: pense em trombose, lesão muscular, compressão do ciático ou obstrução arterial daquele lado, e procure avaliação no mesmo dia se houver inchaço, calor ou pé frio. Dor nas duas pernas costuma ser venosa, neurológica ou por lipedema.

Dores nas pernas o que pode ser e qual médico procurar?

Peso, inchaço, varizes, dor ao caminhar ou suspeita de trombose: cirurgião vascular. Dor que desce da lombar com formigamento: ortopedista ou neurologista. Dor difusa pelo corpo com cansaço: reumatologista. Se não sabe por onde começar, o vascular faz a triagem com exame físico e Doppler na própria consulta.

O que fazer para aliviar dor nas pernas?

Elevar as pernas, caminhar diariamente, usar meia de compressão se a causa for venosa, alongar a panturrilha, hidratar-se e evitar calor. Anti-inflamatório só por poucos dias e com orientação. Se a dor é de uma perna só com inchaço, ou aparece à noite com pé frio, não tente aliviar em casa: procure atendimento.

Dor nas pernas pode ser coração?

Indiretamente, sim. A insuficiência cardíaca causa inchaço nas duas pernas com peso, junto com falta de ar e cansaço. E a mesma aterosclerose que entope as artérias do coração entope as das pernas: quem tem claudicação tem risco cardiovascular elevado e precisa avaliar o coração. Dor isolada nas pernas, sem inchaço nem falta de ar, raramente é cardíaca.

Dor nas pernas é sintoma de trombose?

Pode ser. Na trombose venosa profunda a dor é de uma perna só, na panturrilha ou na coxa, com inchaço, calor e endurecimento, e começa em horas ou dias. Dor nas duas pernas que vai e volta há meses não é o padrão da trombose. Na dúvida, o ultrassom Doppler venoso confirma ou afasta o diagnóstico em minutos.

Leia também: Pernas inchadas: o que pode ser · Remédio para circulação nas pernas · Pés roxos e frios

Dor nas pernas que não passa?

Avaliação com cirurgião vascular, exame físico completo e ultrassom Doppler na própria consulta: você sai sabendo se a dor é de circulação e qual o próximo passo.

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Este conteúdo é educativo e não substitui consulta médica.

Referências

  1. De Maeseneer MG et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022;63(2):184-267.
  2. Lurie F et al. The 2020 update of the CEAP classification system and reporting standards. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2020;8(3):342-352.
  3. Nordanstig J et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Asymptomatic Lower Limb Peripheral Arterial Disease and Intermittent Claudication. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2024;67(1):9-96.
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Venous thromboembolic diseases: diagnosis, management and thrombophilia testing. NICE guideline NG158, 2020 (atualizada 2023).
  5. Stevens SM et al. Antithrombotic Therapy for VTE Disease: Second Update of the CHEST Guideline and Expert Panel Report. Chest. 2021;160(6):e545-e608.
  6. Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV). Diretrizes de doença venosa crônica e de doença arterial obstrutiva periférica. sbacv.org.br
@victorhugovascular Cirurgião Vascular
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